Enquanto centenas de pessoas morrem, hospital comprado pelo governo serve de motel para usuários de drogas em Cuiabá

Quem entra no hospital São Thomé, comprado pelo governo de Mato Grosso, ao invés de móveis hospitalares e pacientes sendo atendidos encontra roupas íntimas e preservativos espalhados nas dependências do imóvel em ruínas

Desde o dia 25 de março, os cidadãos mato-grossenses vivem em um estado de calamidade pública, em razão dos impactos no sistema de saúde, provocados pela pandemia do coronavírus (Covid -19). No mês de julho a situação da saúde pública no Estado, que já não era das melhores, ficou ainda pior quando os hospitais situados em Mato Grosso atingiram 100% de ocupação dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Além da superlotação nos leitos de UTIs, dezenas de pessoas já com liminares nas mãos, assinadas por um juiz dando a elas o direito ao atendimento nos hospitais, aguardam em uma fila de espera. Ou seja, não há vagas em todo o Estado, na rede pública e nem na privada.

Filhos chorando pela morte dos pais e dos avós, simultaneamente, esposas sofrendo pela morte dos maridos e vice-versa, sem poder se despedir dos seus companheiros, esse é o cenário instalado no Estado de Mato Grosso, onde a população vive momentos de apreensão e dor.

“Desde o dia em que o meu marido começou a sentir os sintomas da doença iniciou se a nossa corrida por uma vaga de UTI, que só conseguimos, três dias depois, quando os rins dele já não estava mais funcionando”, lamenta a esposa de Francisco, Jussara, que passou pela dor do sofrimento de perder o marido no dia 14 de julho em Cuiabá.

Com o sistema público de saúde em colapso, diante do número cada vez maior de óbitos, familiares e amigos dos mortos perguntam, por que os governantes não se prepararam para enfrentar a pandemia?

“Por que o governador Mauro Mendes, sabendo que o coronavírus chegaria em Mato Grosso, não se preparou, não elaborou um plano de ação para prevenir e combater a doença, não investiu na compra de medicamentos, em material e equipamentos hospitalares, nas instalações, reformas e ampliações de hospitais e na contratação de pessoal”, pergunta a jovem Tánia Miranda, filha da aposentada Ana Maria , 65, que faleceu sem conseguir uma vaga de UTI em Cuiabá.

O deputado estadual Elizeu Nascimento (DC), eleito em 2019, tem cobrado, veementemente, esclarecimentos do governador Mauro Mendes, a respeito da destinação dos recursos enviados pelo Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para serem investidos na saúde pública, visando o combate ao coronavírus no Estado de Mato Grosso. O parlamentar apresentou um requerimento na sessão extraordinária na Assembleia Legislativa de Mato Grosso – ALMT no dia 29 de junho, exigindo explicações por parte do governo de Mato Grosso sobre qual foi a destinação dos R$ 471,46 milhões já recebidos pelo governo de MT para a saúde. O  secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo ainda não se pronunciou e o prazo para a prestação de contas termina até o fim deste mês.

Elizeu Nascimento culpa o governador Mauro Mendes pelo colapso na saúde. Ele acusa a gestão atual de ter minimizando os efeitos do coronavírus, subestimar a doença e não desenvolver ações eficazes contra a disseminação da pandemia no Estado.

“A Secretaria Estadual de Saúde (SES-MT) poderia ter aproveitado as estruturas do Novo Hospital Universitário Júlio Müller, reformado e reativado o hospital São Thomé e o hospital Central que estão com suas obras abandonadas há anos em Cuiabá. Eu não tenho nenhuma dúvida que se esses hospitais estivessem funcionando poderiam ajudar a reduzir o número de mortes no Estado, que já passou de mil, mas infelizmente, o governador foi omisso, subestimou o coronavírus e hoje a população mato-grossense está pagando com a própria vida o descaso do governo de Mato Grosso, com a saúde do povo”, aponta Nascimento.

Sobre os hospitais citados; o Novo Hospital Universitário Júlio Müller está com a construção abandonada há mais de 5 anos, desde setembro de 2014. R$ 72 milhões já foram gastos na obra.

De acordo com o projeto, se o hospital tivesse sido concluído teria capacidade para 250 leitos, 23 Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) para adultos, 16 UTIs pediátricas, 20 UTIs neonatal, 26 leitos pré-atendimento, além de uma farmácia e laboratório.

Hospital São Thomé

O prédio do Hospital São Thomé foi adquirido pelo governador Blairo Maggi, por R$ 1,9 milhão, para ser transformado em um hospital de referência no tratamento de doenças tropicais, como hanseníase, aids, tuberculose, malária, dengue, leishmaniose, hepatite, meningite e outras doenças infectocontagiosas. Segundo informações, divulgada na imprensa, na época da compra do prédio, o hospital só precisava de uma pequena reforma e adequações nas instalações para poder receber pacientes.

Hospital São Thomé

No entanto, o projeto não saiu do papel e está fechado (há 16 anos) desde o mês de dezembro de 2003. Atualmente o imóvel abandonado serve de motel para usuários de drogas. Quem entra no hospital ao invés de moveis hospitalares e pacientes sendo atendidos, encontra muito lixo, roupas íntimas e preservativos jogados no lugar que está  em ruínas.

Hospital Central

Outra obra abandonada em Cuiabá é a do Hospital Central, nesse caso, parada há mais de 34 anos.

Hospital Central Foto Mayke Toscano GCom MT

No dia 24 de abril de 2020 o governo de MT anunciou, na imprensa local, a retomada das obras do Hospital Central prevendo gastos de R$ 102 milhões na construção, porém, até o momento continua paralisada.  A obra, que foi lançada em 1984, localizada no Centro Político Administrativo de Cuiabá, começou em 1985, mas foi paralisada após indícios de desvio de dinheiro público. De acordo com informações, o objetivo do governo, na época, era proporcionar um atendimento de referência em alta complexidade nas especialidades de traumatologia, ortopedia e urgência e emergência para a população, contudo 34 anos já se passaram e obra não foi concluída.

Se estivesse pronto o hospital teria 290 leitos; destes, 60 para Unidade de Terapia Intensiva (UTI), 230 leitos para enfermarias e cuidados intermediários e ainda 10 salas para cirurgias.

Histórico A construção do Hospital Central, lançada em 1984, foi paralisada em 1987. Em 1992 foi retomada pela gestão estadual e parou novamente. Em 2004 voltou a ser retomada pelo governo de Mato Grosso, porem logo teve os trabalhos interrompidos.

Atualmente, as estruturas dos hospitais estão abandonadas pelo poder público, sem nenhuma manutenção ou conservação. Se as obras dos hospitais não forem concluídas e entregues à população, todos os recursos financeiros que já foram investidos nas construções serão perdidos.

Por Gabriela Bomdespacho Von Eye

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